.

.

10 de julho de 2016

Recomeço por meio da arte

Ed Machado/Folha de Pernambuco
O sol que nascia quadrado e anunciava mais um dia inóspito passou a representar o recomeço. As mãos que tocaram em armas são as mesmas que dão contornos delicados a esculturas e brinquedos. Os artesãos são 50 reeducandos de dez unidades do sistema penitenciário pernambucano. O trabalho deles é uma confirmação que, com oportunidade, o ser humano é capaz de mudar. A arte é produzida ao longo do ano. Segue para comercialização em lojas do Recife. Mas até o dia 17 deste mês tem espaço privilegiado no maior evento de artesanato da América Latina, a Fenearte.

No presídio de Igarassu, na RMR, onde 3.682 detentos cum­­prem pena, nove homens integram o setor. Divididos en­­tre o trabalho na marcenaria e na finalização, os reeducandos produzem brinquedos e artigos de decoração de madeira. Nas mais de 200 pessoas que passaram pelo pro­­­jeto até hoje, um fator é ob­­servado. “A convivência com homens que têm histórias de vidas semelhantes e que desejam um futuro parecido aflo­­ra a vontade de mudar de vida”, observa o supervisor do projeto, Josivan Oliveira.

Ressocialização
Em meio à superlotação dos presídios pernambucanos, 1,9 mil detentos são autorizados a trabalhar em regime fechado, segundo a Secretaria de Ressocialização (Seres). Recebem 75% de um salário em mãos. Os outros 25% são depositados em uma conta para sacar após a liberdade. Entre os benefícios de cumprir a carga horária de oito horas diárias, durante cinco dias na semana, está a mudança para um pavilhão diferenciado e a remissão de um dia na pena a cada três trabalhados.

Mas essa oportunidade de trabalhar na prisão pode ser considerada um privilégio: apenas 8% de toda a população carcerária do Estado a tem. “Hoje, 2,5 mil detentos trabalham. Infelizmente, ainda há muita resistência em contratar mão de obra carcerária”, constata o gerente de Qualificação Profissional da Seres, Carlos Cordeiro.

O supervisor de gerência de educação e qualificação profissional da Seres, Josafar Reis, defende a intensificação da atividade profissional dentro dos presídios. “São 30 mil homens recebendo três refeições diárias, além dos gastos com água e energia. Se trabalhassem, poderiam diminuir o custo do Estado”.

Professora do mestrado em Direitos Humanos da UFPE, Ana Maria de Barros destacou a dificuldade de ressocializar um detento no País. “Não há o cumprimento do acesso à educação, que é essencial à ressocialização. O sistema se torna um transgressor dos direitos, pois, no lugar de participar de discussões para que reflitam os problemas, eles são agredidos”, disse.

Ed Machado/Folha de Pernambuco
“Eu mudei. Não vou mais cometer erros”
Entre casinhas de bonecas inacabadas, Leandro Félix da Silva, 27, preso por associação ao tráfico, acha que a arte poderá contribuir para a convivência com a família. “Tenho uma filha de oito anos e sonho em um dia me divertir com ela com os brinquedos que fabrico. Quando sair daqui, vou mostrar a minha filha que mudei através da arte. Que não vou mais cometer erros”. Ele lembra a transformação que passou desde que começou a trabalhar dentro da prisão, em Igarassu, onde está há 2 anos e 6 meses. “Comecei a trabalhar há um ano e o meu caráter mudou completamente. Agora, quero sair daqui e fazer faculdade de Teologia. Só fico triste por não poder ver o resultado do meu esforço na Fenearte. Mas vou continuar trabalhando para poder sair daqui e um dia ver tudo”.

Ed Machado/Folha de Pernambuco
“Quero voltar a conviver com a minha família"
Dos dois anos e nove meses preso por tráfico no presídio de Igarassu, o paranaense Leonildo Francisco da Costa, 34, frequenta o ateliê desde 2014. “Tinha uma vida estável, uma família muito boa e trabalhava com meu pai. Cometi um erro. Mas hoje estou aqui para não errar novamente. Sei que se não tivesse tido essa oportunidade poderia voltar a errar. Pois, você se sente muito humilhado. No meio de todos os presos sempre tem aborrecimento. Quando venho para a oficina é o melhor momento do meu dia. Aqui, minha cabeça pensa em coisa boa. Lembro da minha família e espero poder voltar para o meio deles e continuar trabalhando com a arte para sempre”, comentou ele, que é pai de três filhos.

Da Folha de Pernambuco

Nenhum comentário:

Postar um comentário